sábado, 5 de novembro de 2016

Kambiwá

Toy art Kambiwá


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
83KambiwáCambiua

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
PE2954Funasa 2010


Os Kambiwás são um grupo indígena que habita os limites dos municípios brasileiros de Inajá, Ibimirim e Floresta, todos no estado de Pernambuco, na Área Indígena Kambiwá.

Localização

No coração do sertão de Pernambuco, entre os municípios de Inajá e Ibimirim, vivem os índios Kambiwás, reconhecidos pela FUNAI em 1978. A história desse povo é muito parecida com a de outros povos indígenas: foram expulsos das suas terras de origem por fazendeiros e até hoje lutam para reconquistar o direito de uso do seu território.

Organização social

O termo Kambiwá significa “retorno à Serra Negra”, a tão sonhada terra dos mais de 2.400 índios*. A Serra Negra é a área sagrada para esta e outras populações indígenas da região, sendo nela realizados importantes rituais da cultura destes povos. Atualmente, os Kambiwá estão distribuídos em oito aldeamentos principais: Pereiro, Nazário, Serra do Periquito, Tear, Garapão, Americano, Faveleira e Baixa da Índia Alexandra, a aldeia principal, onde se encontra o Posto Indígena Kambiwá.

O povo organiza-se através do cacique, que é responsável pelas articulações políticas; o pajé, o líder religioso; e os conselheiros, que são representantes das famílias tradicionais de cada aldeamento.
Ritual Praia Kambiwá

Tradições

Dentre os rituais religiosos dos Kambiwá, destacam-se o Toré, cerimônia religiosa aberta, onde os índios dançam nos terreiros das aldeias e costumam ingerir uma bebida extraída da juremeira – a jurema ou anjucá – e o Praiá, que é um dos mais importantes rituais cujo sentido religioso não é totalmente revelado. O nome Praiá designa tanto o ritual como os personagens, que são homens vestidos com máscaras de corpo inteiro, feitas com a fibra do caroá. No âmbito do segredo e do sagrado, os Praiá atuam como elemento de comunicação com os ancestrais.

É comum nessas cerimônias cantarem toantes formados de pequenas quadras, geralmente em português. Estes toantes falam sobre o tempo em que os antepassados habitavam a Serra Negra e a sua autoria é dada aos “antigos”:

Urubu de Serra Negra De velho não cai a pena De comer mangaba verde, cunhã Beber água na Jurema Sou índio de Serra Negra Eu sou Caboclo-de-Pena Eu venho fazer penitência Tomando o vinho da jurema

Além dos rituais específicos, o povo Kambiwá possui a tradição do catolicismo, tendo como seu padroeiro São Francisco, o qual é homenageado anualmente no mês de outubro com novenas e festas. A igreja na aldeia da Baixa da Alexandra leva seu nome. Também durante o mês de maio são realizadas novenas a Maria.

Ó Mãe de Deus Ela é mãe soberana Ó Mãe de Deus Tenha pena de nós

Vamos trabalhar Com muita fé em Deus Se a mãe de Deus Nos ajudar, ô ínã hei

Território

Terras Indigenas Kambiwá

A terra Kambiwá está situada no sertão pernambucano, na parte do sub-médio São Francisco, onde predomina clima seco de estepe com chuvas irregulares, provocando constantes períodos de estiagem. De acordo com o levantamento do CONDEPE (1980) menos de um quarto do território homologado em 1998 pelo Governo Federal se presta para o plantio. Ainda assim, parte do território está ocupado por fazendeiros.

Esta situação, aliada à ausência de políticas que venham a garantir a exploração daquele ecossistema, deixa a comunidade com poucas opções além da agricultura de subsistência. O solo arenoso e as pragas comuns na região, inviabilizam o plantio de culturas permanentes. O raro excedente das lavouras é escoado nas feiras livres de cidades próximas. A escassez de água é um dos principais problemas para a manutenção econômica. Sua obtenção é feita através dos poucos poços existentes, cuja profundidade é sempre superior a 100m. É comum a construção de "barreiros" ou seja, pequenos lagos artificiais para o armazenamento da água proveniente das chuvas.

Arikapú

Toy Art Arikapú


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
21Arikapú
Jabutí

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
RO34Siasi/Sesai 2012


Povo co tribos divididas entre várias aldeias ao longo do médio rio Branco. Essa Tribo Indigena foi homologada em 1986. A maioria da população é denominada Tupari, mas há também grupos menores como os Makurap, os Aruá, os Kanoê, os Djeoromitxí e os Arikapú.

A aldeia principal, São Luis, é acessível por carro de Alta Floresta d’Oeste. As outras aldeias, como Trinitário, Colorado, Cajuí e outras só podem ser alcançadas pelo rio e, devido ao seu isolamento, as línguas indígenas e muitas práticas culturais tradicionais estão melhor preservadas. Pesca-se com arco e flecha; há pajés utilizando o paricá para curar, e ainda há as festas de chicha, ocasião em que se pintam com o urucum e o jenipapo, cantam e dançam de modo tradicional. Os pajés Arikapú eram tradicionalmente conhecidos como os mais poderosos da região. Ainda hoje, o pajé mais respeitado pertence a esse grupo.
Colar de folhas Arikapú

A parte meridional da T. I. Rio Branco faz divisa com a Reserva Biológica do Guaporé. Essa reserva tem parte de sua área incidindo sobre a Terra Indígena Massaco, onde vivem grupos isolados. Sua língua e identidade étnica ainda são desconhecidas.

A T. I. Rio Branco e seus habitantes são constantemente ameaçados por seus vizinhos não-indígenas e pelos políticos estaduais de diversas maneiras. Devido ao desmatamento contínuo nos arredores, a área se parece cada vez mais a uma ilha, onde a caça está ficando escassa, aumentando a dependência à pesca. Ao mesmo tempo, invasores entram na reserva praticando a pesca ilegal em grande escala. Os pesticidas utilizados nas fazendas, localizadas na região das cabeceiras (que fica fora da T. I.), acabam indo para o rio principal, colocando em risco a saúde dos que ali vivem. Os projetos hidroelétricos irregulares da região também provocam graves danos aos ecossistemas fluviais. Finalmente, a atividade madeireira ilegal dentro da T. I. causa ainda mais danos ecológicos.

Há relatos de destruição de sítios arqueológicos em função de obras de construção em Paulo Saldanha, no alto rio Branco. Em alguns casos, urnas funerárias foram desenterradas e propositalmente destruídas na tentativa de ocultar evidências jurídicas. Um dos últimos falantes do Arikapú enterrou (de modo tradicional) sua mãe e sua filha de cinco anos nas cabeceiras do rio Branco e ficou transtornado ao saber da possível destruição de seus túmulos. Este tipo de ação prejudica as opções futuras dos Arikapú e de outros grupos de reivindicarem suas terras ancestrais.

A desvalorização da cultura tradicional acelerou-se recentemente com a chegada de uma igreja protestante fundamentalista que desaprova o xamanismo e as festas tradicionais, criando assim uma divisão interna na comunidade.

T. I. Guaporé
A Terra Indígena Guaporé tem mais de 600 habitantes, divididos entre várias aldeias nas baias e nos lagos ao longo do grande rio Guaporé. A homologação dessa T. I. ocorreu em 1996.

A população é formada por famílias mistas de Aruá, Wayurú, Makurap, Tupari, Kanoê, Aikanã, Djeoromitxí, Arikapú, Wari’ e Kuyubi. A maioria das pessoas vive na aldeia superpovoada Ricardo Franco (antigo nome da reserva), no próprio rio Guaporé. Há um posto da Funai, um posto médico e uma escola.

Semelhante ao caso de São Luis, em Ricardo Franco, a influência da cultura dos não-indígenas é forte. A maioria dos jovens encontrou poucas opções de vida, o que causa muitos problemas sociais. A vida nas outras aldeias (Baia das Onças, Baia da Coca e Baia Rica) é melhor no que diz respeito à caça, à pesca e à agricultura de roçado. Além disso, as línguas indígenas e muitos elementos da cultura tradicional são ali melhor preservados. A região ao redor da T. I. Guaporé não é totalmente conhecida e pode ser que haja grupos isolados. Muitos habitantes da área relatam que em várias ocasiões tiveram encontros com índios não-identificados.

Como na T. I. Rio Branco, existe na T. I. Guaporé a pesca ilegal, no entanto a atividade madeireira e o problema com os pesticidas agrícolas ocorrem em menor escala – isso por causa de sua localização mais isolada e sem acesso terrestre. Outros problemas surgem na área. por conta de sua proximidade com a Bolívia, que fica a uma distância de 300 metros na outra margem do Guaporé. Há quatro anos vem acontecendo de forma constante a dragagem ilegal de cascalho na margem brasileira na Baia das Onças. O que se diz é que o cascalho é utilizado na produção de cimento, mas as atividades têm a aparência de garimpagem. Qualquer que seja a finalidade, tal atividade é danosa ao ambiente da região, pois destrói as encostas e pode alterar assim a correnteza do rio. Estas ações foram denunciadas em vão às autoridades, visto a facilidade de levar os equipamentos para o lado boliviano antes da chegada da Polícia Federal, que vem da longínqua cidade de Guajará-Mirim.

Desana

Toy art Desana

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
45DesanaDesano, DessanoTukano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM2028Siasi/Sesai 2012
Colombia20361998


Os Desanas são um grupo indígena que habita no Noroeste do estado brasileiros do Amazonas, nas Áreas Indígenas Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Pari Cachoeira I, Pari Cachoeira II, Pari Cachoeira III, Taracuá, Yauareté I e Reserva Indígena Balaio, além da Colômbia.

Autodenominam-se Umukomasã. Sua língua caracteriza-se como da família tukano oriental. Na realidade línguas muito próximas no que diz respeito à gramática e ao vocabulário. Distribuem-se pela bacia do Rio Uaupés afluente do alto curso do rio Negro e outras bacias vizinhas ao sul. Os grupos que integram os Tukano Oriental organizam-se em fratrias e sibs patrilineares exogâmicos (grupos de descendentes de um ancestral comum que não casam entre si): Arapaso, Bará, Barasana, Desana, Karapanã, Kubeo, Makuna, Miriti-tapuya, Pirá-tapuya, Siriano, Tariana, Tukano, Tuyuka, Kotiria, Taiwano, Tatuyo, Yuruti (sendo que as três últimas habitam só na Colômbia). Na região compartilham convenções sobre o uso dessas línguas: a maioria fala pelo menos duas línguas e freqüentemente compreende outras, privilegiando a língua paterna nas conversas cotidianas.
O herptologo Frank Cuesta em visita a tribo dos Desana no programa do Discoery Channel, Perdido na Amazonia 

Os Desana, ou Umuko Masá (“gente do universo”), são um dos dezesseis povos dessa família lingüística que moram nesse no Brasil e na Colômbia. Sendo aproximadamente 1,5 mil indivíduos no Brasil, distribuindo-se se em cerca de 60 comunidades misturadas a comunidades de outros povos da mesma família lingüística.

Xamanismo

Pintura Feminina Desana - foto David Lazar

Nos rituais dos Desana com propósito  de prevenção e cura de doenças, segundo a fonte do seu poder e a natureza de suas práticas terapêuticas: os yea, ou xamãs-onça, e os kumua, ou xamãs-rezadores. Os yea, cujo poder advém do contato estabelecido com os espíritos por meio da inalação do pó de paricá, são descritos como tendo a capacidade de se transformar em onça (daí o seu nome) para realizar certas tarefas. Eles efetuam as curas xamânicas através de diversas técnicas de manipulação do corpo (massagens, sucção, etc.) que visam a extrair do corpo do doente o objeto patogênico.Os kumu (especialistas religiosos) também utilizam em seus rituais coca, tabaco e ayahuasca

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Arara do Rio Amônia

Toy Art Arara do Rio Amônia


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
17Arara do Rio AmôniaApolima-Arara, Arara Apolima
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AC297Siasi/Sesai 2012


As famílias indígenas que se reconhecem como Arara no rio Amônia possuem na verdade uma composição étnica múltipla, destacando-se os grupos familiares Arara propriamente falando e os de origem Amawáka, Koníbo, Santa Rosa,  Kampa e Kaxinawá.

Várias famílias, além disso, possuem influência marcante dos laços de parentesco estabelecidos ao longo do tempo com a população regional não indígena. A área cuja demarcação é reivindicada pelos Arara encontra-se hoje inserida nos limites, por um lado, do Projeto de Assentamento Amônia, sob a jurisdição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), do Parque Nacional da Serra do Divisor, sob a jurisdição do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Parte da área ocupada pelos Arara sobrepõe-se à Reserva Extrativista do Alto Juru á.Situada no contexto de seringais nativos, desde as duas últimas décadas do século XIX, esta reserva, com extensão estimada de 506.186 hectares, integra um mosaico contínuo de áreas protegidas que atualmente se encontram em diferentes etapas de seus processos de regularização fundiária. Dentre elas, destacam-se 21 terras indígenas com extensão estimada em 1.653.693 hectares, das quais 15 já estão regularizadas.

Arara durante a ocupação da área do Rio Amônia - Foto Juruá Online

Chamacoco

Toy Art Chamacoco

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
39Chamacoco
Samuko
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MS40Grumberg 1994
Paraguai1515II Censo Nacional Indígena 2002



Divididos em dois grupos principais, os Chamacocos vivem em duas areas distintas, os denominados como Ebytoso vivem nas margens do Rio Paraguai e se converteram ao cristianismo, e os Tomáraho que vivem nas florestas ao redor dos Ebytoso e ainda cultivam sua religiosidade tradicional. Outros nomes para essa etnia são Ishiro, Yshiro, Jeywo, Yshyro, Xamicoco, Xamacoco ou Yshyr.

Vários grupos Ishír viveram no Gran Chaco no século XIX e se fixaram em torno do Rio Paraguai. Os ebitosos viveram aí por séculos e os tomárahos viveram no Gran Chaco, sendo estes últimos considerados hostis até a década de 1970.

Durante a Guerra do Chaco (1932-35) o povo Ishír lutou com soldados paraguaios contra bolivianos, mas quando a guerra acabou eles perderam territórios e precisaram negociar a sobrevivência de sua etnia com os colonos paraguaios.

Os tomaráhos remanescentes ainda viviam em escravidão por dívidas no centro de exploraçao de San Carlos e estavam morrendo por doenças, negligência e fome. Enquanto os ebitosos tinham abandonado seus rituais por pressão de missionários evangelistas, os tomáraho ainda praticavam o ritual de iniciaçao de meninos e mantinham um conhecimento detalhado sobre mitos e shamanismo.
O primeiro contato com de tomárahos com ebitosos foi em 1981 quando Bruno Barrás e Guillermo Mallero (ambos pertencentes ao povo Ishír de Fuerte Olimpo) foram ate San Carlos para levar o primeiro Censo Nacional Indígena. Em 1985 eles eram em apenas 87 pessoas.

Esses grupos estao desaparecendo devido à pobreza resultante da tranformação de suas terras, à degradação de recursos naturais e à pressão vinda da expansão da atividade economica. Jovens se mudam para cidades do Paraguai e do Brasil, abandonando suas crenças e, em geral, negando suas origens para que nao sejam vitimas de discriminaçao.

Em 2009, apenas tres comunidades do povo ebitoso tinham status legal e terras próprias, enquanto a comunidade de tomáraho tem status legal e se estabeleceram em terras ilegalmente possuídas.

A língua Chamacoco também é conhecida como Xamicoco ou Xamacoco, apesar da tribo preferir o nome como Ishír, que também é falado como Ishiro ou Jewyo. É falada por indígenas de todas as idades, que geralmente não falam espanhol ou guarani bem.

Chamacoco é classificada como uma língua Zamucoan, juntamente com a Ayoreo, e ambas as línguas são consideradas em perigo.
Cena do documentario Chamacoco, la amenaza de Nemur de Darío Arcella 1997

A estrutura da língua funciona da seguinte forma: Verbos tem sua flexão baseada em prefixos pessoais, a língua não é temporal. Nomes podem ser divididos em possessivos e não-possessivos. Possessivos são caracterizados por um prefixo pelo qual o nome concorda com o dono da posse ou genêro. A sintaxe é caracterizada pela presença de estruturas para-hipotáticas.

Mitologia

Enquanto histórias contadas por ybytoso diferir daquela de Tomáraho em muitos aspectos, o "Mito grande" yshyr pode ser resumido como se segue: Por ocasião da viagem através da selva, um grupo de mulheres yshyr conheceu o ahnapzöro (ou anapsoro), deuses poderosos e terríveis, de aparência estranha, que não tinha facções em seus rostos. Cada um deles tinha diferentes personagens únicos, cobertos de penas, pêlos, ou cores estranhas. O ahnapsoro vivia então com yshyr, e lhes ensinou a caçar, utilizar as ferramentas e iniciou-os em suas cerimônias rituais. Depois de um tempo a coexistência de homens e deuses tornou-se difícil, chegando a uma crise com a morte de alguns jovens nas cerimônias de iniciação agressivos. Então Eshönewörta (ou Ashnuwerta), líder ahnapzoro, mostrou a yshyr a vulnerabilidade do ahnapzoro, para que eles pudessem matá-los, batendo-os no tornozelo, como que eles tinham lá garganta. Em um curto espaço de tempo foram exterminados todos os anapsor. apenas dois sobreviveram à chacina: Eshönewörta eo Nemur temível, que escapou. Quando Nemur sentiu o desenho humano em cima dele, eles já estavam no local chamado Karcha Balut ele pegou um caracol do solo ou puxou-o de plumagem grossa de seu corpo (dependendo das versões) e com um gesto extravagante produziu um rio caudaloso que brotou de seu escudo. O homem ea anapser, separadas pelo rio hoje conhecido como o rio Paraguai, "trocar palavras" pela última vez. "Você pode correr, mas seu destino é ficar para sempre sozinho", pronuncia Syr, de pé na margem do rio. "Teu povo são numerosos", responde Nemur da margem oposta ", mas eles serão sempre obrigados a seguir as palavras. Se eles falharem, a doença, a fome, e os inimigos vão dizimar então até o último Kytymaraha (nome do clã de Syr ) extingue-se. " Há uma outra instituição mítica que promove o uso equilibrado dos recursos naturais: a figura do Mestre dos Animais. Cada animal tem seu mestre sua Balut, o porta-voz, que facilita simultaneamente caça e pune severamente o excesso.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Angá Avá - Os espíritos da Floresta

Capa do primeiro episodio de Angá Ava, as aventuras de Haans Staden em meio aos mais de 200 espíritos das etnias brasileiras 

Curioso como qualquer Otaku conhece de cór os mais de 500 pokemons e suas evoluções, mas quase ninguém consegue citar ao menos 10 etnias indígenas Brasileiras. Trata-se de quase um milhão de pessoas, divididas aproximadamente 305 grupos étnicos, falando 274 idiomas diferentes, com sua própria concepção de mundo, religião, conhecimentos únicos de botânica, ecologia e sustentabilidade.

Tal como constatei na postagem http://indigenasbrasileiros.blogspot.com.br/2016/01/indios-brasileiros-em-toy-art-grupos.html  seria muito fácil gerar interesse nas culturas indígenas em nossos jovens, se colocássemos essas etnias com suas historias e lendas no formato de formato de manga e animes, tal qual os Pokemons.

Nesse sentido, nos resolvemos apresentar nossa versão, num manga chamado Angá Avá, palavras em Guarani para designar os espíritos da floresta. de Pindorama

Sinopse 

Enquanto caminhava na floresta, o desenhista explorador Haans Staden buscava ilustrar cada detalhe de tudo que via em suas viagens pelo Brasil, até que certo dia encontrou um muiraquitã dentro de um poço, decidido a pegar a linda peça, Hanns cuidadosamente desce e percebe que o poço é muito mais fundo do que houvera percebido. Quando estava quase alcançando o muiraquitã, Hanns cai e fica inconsciente.
Ao perceber que Haans está exausto, um Tëpë Ashaninka oferece Piyarentsi (bebida ritual Ashaninka), com intuito de repor suas forças espirituais para assim, poder terminar sua jornada

Ao recobrar os sentidos, Haans se vê cercado de pequenos indiozinhos Xavantes, que chamam a eles mesmos de Angá Avás (espíritos da floresta), o pequeno indiozinho diz a Haans que ele acabara de chegar a um plano dimensional chamado de UHIRI, e que nesse plano uma batalha estava em curso entre os Napës e os Tëpës.

Revoltados com a ignorância dos homens das cidades, os Napë (palavra em idioma Ianomâmi para homens urbanos) indígenas de mais de duzentas nações do Brasil, os Tëpë (também em linguagem Ianomâmi, significa seres vivos, termo usado para se auto denominarem) pediram ao Grande Tupã que os impedisse de destruir a floresta. Sabendo que o progresso é inevitável o sábio Tupã decidiu que todas as questões fossem resolvidas uma a uma,  em arenas de disputa no plano UHIRI (plano florestal superior, também em ianomâmi ), sabendo que a cada vitoria ou perda nesse mundo, geraria conseqüências no mundo real, no qual Haans habitava.

Hanns chega a cidade de Salvador acompanhado de um Tëpë Xavante, palco de uma grande batalha.
Nessas disputas, os Tëpë só podem utilizar como armas os diversos espíritos da floresta, divididos em grupos pertencentes a seus elementos naturais, o fogo, o ar, a água e a terra, enquanto que os Napë podem utilizar as ferramentas existentes no mundo real. 

É então que Haans, percebe que seu material de desenho adquire poderes especiais e decide tomar partido, ajudando os Tëpë...

O temível Dr. Grille chega em seu Serra-Móvel auxiliado por Yuyura Kakuaavai (arvore malcriada em Guaraní)  um trapaceiro Angá Avá rebelde e vingativo 

Se você quiser saber mais sobre as aventuras de Haans, aguarde os próximos episódios de Angá Avá – Espíritos da Floresta.

sábado, 4 de junho de 2016

Marubo

Toy Art Marubo


#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
134Marubo
Pano

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM1705Funasa 2010



Os marubos são um grupo indígena da família pano que habita o Sudoeste do estado brasileiro do Amazonas, mais precisamente a Área Indígena Vale do Javari. Junto com os corubos, os matises e os matsés, são denominados de modo genérico de maiorunas.

Segundo Júlio César Mellati o povo marubo parece resultar da reorganização de sociedades indígenas dizimadas e fragmentadas por caucheiros e seringueiros no auge do período da borracha. Contudo como assinala o autor, que classifica esse grupo indígena na área cultural Juruá–Ucayali, tal movimento étnico de dispersão e reagrupamento pode remontar a tempos mais antigos, como sugerem nomes de seções marúbo em outros povos panos vizinhos. Melatti observa ainda que a referida área cultural delimitada por Eduardo Galvão pode ser melhor compreendida como Javari-Purus abrangendo assim uma maior proporção dos grupos Pano.

No Relatório sobre os índios Marubo apresentado por Melatti à FUNAI por ocasião da construção da rodovia Perimetral - BR-307 na região, segundo o qual Marubo não é o nome que corresponde a uma autodenominação e sim um nome que os civilizados lhes atribuem.

Parece não haver um termo específico para essa autodenominação pois o, já cogitado, termo yora não denomina apenas a seu grupo, mas a todos os indígenas contrapondo-se ao termo nawa, com que chamam os civilizados.

Características culturais
Pintura Corporal feminina Marubo

Os marubos não diferem essencialmente dos demais povos pano dessa região sendo que, como assinala Dan James Pantone foram os primeiros povos indígenas do vale do Javari a fazer contato com estranhos na virada do século XX sendo por conseguinte, em detrimento de outras tribos do Vale, os primeiros a ter acesso a armas de fogo adquirindo poder e capacidade de dominar todas as outras tribos do Javari.

Galvão (o.c.) descreve essa área cultural típica de florestas com predominância de terras baixas, enfrentando atividade extrativistas desde 1860, como tendo a subsistência na base de roças, pesca, canoas de casca e ubás, remo lanceolado, caça com uso de veneno (provavelmente curare) e zarabatanas. Entre os panos crença num deus supremo. Xamanismo com utilização de paricá, tabaco, chicha. Melatti descreve ainda a utilização da ayahuasca e vacina do sapo ou a "injeção de sapo" (secreção da perereca Philomedusa bicolor) usada para dar ânimo, tirar a preguiça, tirar o panema.
adorno nasal de miçangas, tipico das mulheres Marubo

Segundo Júlio César Melatti, entre os marubos, há dois tipos de agentes da magia. Um deles, que entra em transe e recebe em seu corpo espíritos de outras camadas do universo enquanto sua própria alma visita essas camadas, exerce mais do que atividades de cura, uma vez o simples contato com esses seres já é razão suficiente para procurar comunicação com eles. O outro tipo é constituído por aqueles que entoam cânticos de cura sobre os doentes. Ambos os tipos fazem uso da ayahuasca e do rapé de tabaco.

Ainda segundo Melatti, para os marubos o universo é constituído de várias camadas terrestres, das quais a superior é aquela onde vivemos, e várias camadas celestes. Para os seres humanos talvez a camada celeste mais importante seja a segunda, contando-se de baixo par cima, pois é para lá que devem se dirigir suas almas após a morte, através do percurso de um caminho cheio de perigos, a cujos obstáculos aqueles que não seguiram as regras sociais sucumbem. Observe-se a concepção do não cumprimento das regras sociais associado à morte e adoecimento. As doenças na concepção marubo, conforme os cânticos de cura, se formam de partes de outros seres (mítico membros e órgãos e pedaços de animais abatidos por um herói mítico).

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Karipuna do Amapá

Toy Art Karipuna do Amapá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
94Karipuna do Amapá
Creoulo
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AP2421Funasa 2010



As famílias Karipuna formavam uma população de aproximadamente 1.700 pessoas, segundo dados de 2002, residentes em sua maioria às margens do rio Curipi, afluente do rio Uaçá, no norte do estado do Amapá. Trata-se da região do baixo rio Oiapoque, nas proximidades do Cabo Orange, área de fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.

Toda região do baixo rio Oiapoque, incluindo a bacia do rio Uaçá com seus afluentes, consiste numa área de fronteiras em vários sentidos. Fronteiras entre áreas fluviais e marítimas, litoral e área interiorana, vegetação pantanosa e de floresta, o calor equatorial e a brisa das monções oceânicas, fronteiras entre nações. As populações do Uaçá que convivem nessa região também criam, contornam e recriam fronteiras específicas, diferenciando-se em etnias, indentificando-se como “povos indígenas do Oiapoque”.

O tamanho e a composição das aldeias Karipuna variam enormemente. De todas, poucas não estão às margens do rio Curupi: encontram-se ao longo da BR-156 ou no rio Oiapoque, e também no Igarapé Juminã.

AldeiasPopulação (em 2002)
Manga458
Japiim29
Paxiubal37
Santa Isabel238
Taminã45
Espírito Santo345
Jõdef64
Txipidon21
Igarapé de Onça6
Zacarias 27
Ghõ Puen4
Tauahu12
Bastião8
Açaizal91
Encruzo25
Piquiá19
Curipi38
Kariá95
Estrela95
Aribamba49
Kunanã70

Dessas aldeias, só não estão às margens do rio Curupi a Piquiá, Curipi, Kariá e Estrela, que ficam ao longo da BR-156; além de Aribamba, no rio Oiapoque, e Kunanã, no Igarapé Juminã.

Desde outubro de 2002, todas essas aldeias encontram-se em território demarcado e homologado por decreto presidencial em três Terras Indígenas (TIs) contíguas: A TI Uaçá, com superfície de 470.164, 06 ha; a TI Juminã, com 41.601,3 ha; a TI Galibi, que já se encontrava homologada desde 1982, com superfície de 6.689,2 há, e onde está a aldeia Aribamba.

Rituais - Osa Turés

Os Turés são considerados pelas famílias do Curipi como ocasiões de dançar, beber e cantar junto com os seres sobrenaturais chamados de karuãna, e de oferecer-lhes caxiri, como retribuição às curas de doenças que propiciaram por intermédio dos pajés. Os participantes de um Turé correspondem à clientela de um pajé, àquele grupo de famílias que a ele recorre em casos de enfermidade. Assim, os Turés reúnem famílias geralmente aparentadas, que têm em comum a confiança em determinado pajé, e o reconhecimento do conjunto de seres sobrenaturais que são considerados zami (amigos), kamahad (camaradas) ou karuãna deste pajé.

Centrado na figura dos pajés, cada Turé abrange as particularidades de seu próprio universo de karuãna. Acredita-se que os xamãs mais "fortes" conseguem agrupar um maior número de karuãna, os quais lhes ensinam muitas músicas de Turé, e por isso são capazes de cantar várias noites sem repetir nenhuma canção. A força advinda dos karuãna também permite que façam o diagnóstico adequado das doenças e consigam curá-las com êxito, de forma que há muita gente para preparar caxiri (os parentes dos doentes retribuem a cura aos karuãna do pajé oferecendo-lhes caxiri) no Turé de um pajé "forte", e a dança dura muitas noites.

Os Karipuna preferem fazer os Turés em um fim de semana de lua cheia no mês de Outubro, o qual marca o fim da temporada seca e, portanto, antes das primeiras chuvas. Mas várias contingências podem alterar a data ideal, inclusive a tentativa de evitar que vários Turés sejam realizados no mesmo dia. Assim, os pajés fazem as festas também em noites sem lua, iluminadas com lamparinas, até o começo de dezembro, se as chuvas atrasarem tanto. Mesmo aquelas aldeias que têm motor de luz fazem uso das lamparinas durante os Turés, pois os karuãna não gostam de barulho. Há Turés, no entanto, que têm lugar em certas datas festivas, como o Dia do Índio, ou em comemorações nas cidades vizinhas, e que são considerados "demonstrações", mais do que propriamente ocasiões para festejar com os karuãna.

A preparação de um Turé começa com muita antecedência, como também ocorrem com as festas de santos. No final de um Turé, após o discurso do pajé, um grupo de homens se propõe a ajudá-lo no ano seguinte, com o gesto de carregar os mastros do Turé nas costas. São chamados tet dãse (cabeças da dança) e devem auxiliar o pajé em todos preparativos, além de contribuir para animar a festa, tocando as flautas, cantando e puxando as danças.

Ritual do Turé na Aldeia do Manga - Aldeias do campo fronteiriço do Oiapoque

Os pajés entrevistados afirmam que a longa preparação do Turé se dá através de sonhos, durante os quais viajam para "o Fundo", ou para "outros mundos”, onde participam de Turés com seus karuãna, também chamados "bichos". São estes rituais oníricos que inspiram os pajés a organizarem seus Turés "nesse mundo”: ali aprendem as pinturas dos bancos, dos mastros, sua disposição no pátio da dança, também chamado laku, bem como novas músicas. Estas são também ensinadas por seus karuãna, de modo que cada melodia é considerada particular de cada pajé, sinais de seus contatos com os karuãna, sendo extremamente malvisto o fato de “imitar" músicas alheias.

A partir dos sonhos, portanto, os pajés arrumam o laku, o qual é delimitado por uma cerca de bambus, e o piroro, dentro do qual são dispostos os bancos e os mastros enfeitados. Para a arrumação, convocam os tet dãse, geralmente com um ou dois meses de antecedência, tempo necessário para a confecção dos bancos, mastros e enfeites corporais: coroas de penas, colares, adornos dorsais, maracás.

Ao lado das explicações e práticas dos pajés, os Karipuna fazem uso de recursos católicos, na forma das rezas, das promessas e das ladainhas. As festas de santos são comemoradas em vários pontos do rio Curipi e ao longo de todos o ano e tem na “Festa Grande”, o Divino Espírito Santo, o seu modelo.

Krenak

Toy Art Krenak

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
118KrenakCrenaque, Crenac, Krenac, Botocudos, Aimorés, KrénKrenák
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT, MG, SP350Funasa 2010



Os Krenák ou Borun constituem-se nos últimos Botocudos do Leste, nome atribuído pelos portugueses no final do século XVIII aos grupos que usavam botoques auriculares e labiais. São conhecidos também por Aimorés, nominação dada pelos Tupí, e por Grén ou Krén, sua auto-denominação. O nome Krenák é o do líder do grupo que comandou a cisão dos Gutkrák do rio Pancas, no Espírito Santo, no início do século XX. Localizaram-se, naquele momento, na margem esquerda do rio Doce, em Minas Gerais, entre as cidades de Resplendor e Conselheiro Pena, onde estão até hoje, numa reserva de quatro mil hectares criada pelo SPI, que ali concentrou, no fim da década de 20, outros grupos Botocudos do rio Doce: os Pojixá, Nakre-ehé, Miñajirum, Jiporók e Gutkrák, sendo este o grupo do qual os Krenák haviam se separado.

Indias da etnia Krenak dançando na 2ª Festa do Índio-Krenak e a 1ª Olimpiadas Indigenas de Resplendor
Os Krenák pertencem ao grupo lingüístico Macro-Jê, falando uma língua denominada Borun. Apenas as mulheres com mais de quarenta anos são bilíngües, enquanto os homens, jovens e crianças de ambos os sexos são falantes do português. Nos últimos três anos vêm envidando esforços para que as crianças voltem a falar o Borun.

domingo, 10 de abril de 2016

Tabajara

Toy Art Tabajara

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
182Tabajara


UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
CE2982Funasa 2010

A classificação Tabajara acabe sendo genérica e gera muita confusão, segundo Fausto, (1992, p. 384, 385 e 391) o termo Tobajara, era uma categoria classificatória dos povos tupi que servia para denominar aqueles grupos com os quais podiam estabelecer relações de reciprocidade ou de guerra alternadamente, advindo daí a sua dupla tradução como cunhado e inimigo.

Tentamos, neste ponto, desnaturalizar as ideias a respeito de uma suposta unidade e diferenciação indígena em grupos bem delimitados e segmentados, que estaria representada em seus etnônimos. Pois, “Longe de ser uma profunda expressão da unidade de um grupo, um etnônimo resulta (geralmente) de um acidente histórico, que frequentemente é conceitualizado como um ato falho, associado a um jogo de palavras e com efeito de chiste” (Oliveira, 1999, p. 172. Parênteses nossos). Ainda mais nos casos dos encontros e desencontros coloniais, nos quais os jogos de interesses e as guerras provocavam constantes mudanças sociais, com grupos se fragmentando, se reunindo e mudando de lado . Por isso, nesta análise histórica optamos por tratar do etnônimo tabajara e não da etnia Tabajara, evitando reificar eventos e menções que talvez tenham existido apenas no momento da escrita colonial e que não correspondiam às divisões correntes entre os indígenas.

De acordo com Silva (2003) os termos Potiguara, Tabajaras e Caetés, que aparecem nas crônicas coloniais de Pernambuco têm mais a ver com posições assumidas pelos grupos indígenas na relação com os colonos portugueses do que com divisões estanques entre os grupos, podendo estes mudar de nome de acordo com as mudanças nas alianças políticas

Com um histórico de alianças com os portugueses, os Tabajara são “leais”, “valentes”, “fortes”, com ações de tanto valor, destreza, ousadia e esforço. A conversão para a fé católica também é apresentada como um ingrediente a mais no diferencial em relação aos outros grupos, e por fim, a referência aos “capitães heróis”, desde o tempo de Duarte Coelho, completa a construção da figura mítica para o grupo.(2003, p. 35).

Esta variedade de denominações é comum na literatura histórica e antropológica, onde a depender das fontes, os grupos aparecem grafados de diversas maneiras e até com dois ou três nomes diferentes. Assim, muitos autores utilizarão o termo Tupinambá para designar o conjunto de povos de língua tupi (esta também chamada de tupinambá antigo, cf. Rodrigues, 1986) que vivia no litoral entre Cananeia/SP e o Ceará, tendo daí migrado para a Serra da Ibiapaba, o Maranhão, o Pará e a ilha Tupinambarana, no rio Amazonas.

Ao descrever as migrações dos Tupinambá, Caeté e Potiguar do litoral de Pernambuco e da Bahia para o Maranhão, Fernandes (1989), argumenta que ao fugirem dos portugueses que ocupavam estas regiões, estes grupos se aliaram e no trajeto percorrido a partir de 1570-72, ocuparam diversas áreas do interior e litoral

“A composição dessas migrações é perceptível na distribuição dos emigrantes nas terras do Maranhão e do Pará, conquistadas aos Tapuias, seus antigos senhores. Os Tupinambá abandonaram a zona do Ibiapaba, e localizaram-se na Ilha do Maranhão. Os Potiguar continuaram a viver ali. Em virtude do rompimento dos laços de solidariedade, os dois grupos tribais tornaram-se inimigos designando-se reciprocamente como Tabajara.” (1989, p. 43, grifos nossos)

Em virtude disso, os grupos que se fixaram na serra da Ibiapaba ficaram conhecidos nos registros históricos como Tabajara. Nesta região, viviam ainda inúmeros grupos tapuias, tais como Tacarijú, Quitaiaiú, Ocongá, Caratiú, Reriiú (Areriú), Acriú, Anacé, Aconguassu (Acoanssu), que eram de certa forma subordinados aos Tabajaras. Ainda no século XVII, após as invasões holandesas, centenas de índios Potiguara da Paraíba e Pernambuco, convertidos ao calvinismo, buscaram refúgio na Ibiapaba, até então, uma área livre do controle português.

No século XVIII quando os padres jesuítas conseguem finalmente instalar uma missão na serra da Ibiapaba esta vai ser composta por uma variedade de etnias indígenas, muitas vezes citadas na documentação como Tabajara (Cf. Barros, 2001). Essa população aldeada vai sendo incorporada ao projeto colonial paulatinamente, destacando-se a sua utilização como mão-de-obra agrícola e fornecimento de tropas para combater índios rebeldes e invasões estrangeiras. A associação entre o etnônimo Tabajara e as populações nativas da serra da Ibiapaba vai se costurando nesse processo, de modo que, nos séculos seguintes serão tratados em muitos textos quase como sinônimos. Com a elevação das aldeias missionárias à categoria de vilas de índios a partir de 1759, registra-se na capitania do Ceará uma grande dispersão dos índios aldeados, em virtude das novas condições de trabalho, ditadas pelos diretores civis que substituíam os padres (Porto Alegre, 1992, p. 203-208). Na Ibiapaba, as aldeias missionárias constituirão as vilas de Viçosa, São Benedito e Ibiapina, que serão registradas como lugares habitados por índios até o século seguinte (Porto Alegre, 1992; 2004).

A dispersão da população aldeada tenderá a se acentuar ao longo do século XIX, com os inúmeros conflitos sociais do primeiro império, quando registra-se a deserção de 60 casais da Vila Viçosa para participar da Balaiada no Maranhão. Durante o segundo império, as aplicações da lei de terras e a extinção dos antigos aldeamentos irão provocar a invisibilização completa da população indígena na província do Ceará. É neste momento que são referidas as últimas notícias com relação ao etnônimo Tabajara e/ou aos índios da serra da Ibiapaba, precisamente em notícias de viajantes e expedições científicas (cf. Porto Alegre, 2003).

São esses processos que irão acelerar a dispersão da população indígena em pequenos grupos familiares em busca de alternativas de sobrevivência em terras devolutas ou sob a proteção de algum proprietário. Essa busca se dará especialmente nas zonas fronteiriças e ainda não ocupadas, como a região sul da Ibiapaba (Crateús), trocada no final do século XIX, pelo Piauí em favor de uma saída para mar, representada pelo porto de Parnaíba, até então pertencente ao Ceará.

Os tabajaras hoje

Os Tabajaras possuem uma história de sucessivas migrações, devido a constantes conflitos de terras. Os Tabajaras que vivem em Crateús são provenientes das serras vizinhas, principalmente a serra da Ibiapaba, e tiveram que migrar para a periferia da cidade, foragidos da opressão exercida pelos fazendeiros que invadiram suas terras. Dividem-se em sete comunidades. Recentemente, um grupo de 15 (quinze) famílias dos Lira, migrou para a cidade de Quiterianópolis, onde encontraram melhores condições para viver, de acordo com seus costumes indígenas. Ficaram conhecidos como os Tabajaras de Fidélis. Nesta mesma cidade encontram-se mais 3 (três) comunidades Tabajaras: Vila Nova, Croatá e Vila Alegre, todas na área rural.

Em fevereiro de 2004, os Tabajaras de Crateús conseguiram, através de sua luta, retomar cerca de 6.000 hectares de suas terras que ficam na serra da Ibiapaba. O local é chamado de Nazário e lá estão residindo cerca de 10 famílias, entre Tabajara e Kalabaça, enquanto aguardam a delimitação e demarcação da terra.

Em Monsenhor Tabosa se encontra a comunidade Tabajara de Olho d`água de Canutos, há 4 km desta cidade. São 13 famílias residindo na região. Em 1973 a família Canuto, liderada por Seu José Canuto, comprou 74 hectares de terras onde antes viviam como moradores. Organizam-se através da Associação Unidos Venceremos do Povo Tabajara de Olho D´água de Canutos, que se reúne no salão comunitário da Escola Indígena da comunidade. Em Tamboril existe a comunidade Tabajara em Grota Verde, a 35 quilômetros da cidade. São 25 famílias que se organizam através de uma associação sob a liderança de Agno Tabajara. Atualmente, sofrem constantes ameaças por parte de fazendeiros, fato que tem limitado suas ações políticas.

Os tabajaras de Poranga residem na Aldeia Imburana, que fica próxima à cidade e também na Aldeia Cajueiro, distante 38 quilômetros de Imburana. Esta aldeia, de 4.400 hectares, foi fruto de uma retomada, sendo hoje habitada por 9 famílias, entre Tabajara e Kalabaça e igualmente aguardam a regularização da terra indígena.

Entre suas instituições, existem o Conselho Indígena dos Povos Tabajara e Kalabaça de Poranga - CIPO, importante instrumento de organização e luta; a Associação de Mulheres Indígenas Tabajara e Kalabaça (AMITK) e a Escola Diferenciada Indígena de Poranga.

População e localização atual

De acordo com o Distrito Sanitátio Especial Indígena do Ceará (órgão da Fundação Nacional de Saúde), os Tabajara no Ceará compõem uma população de 2982 pessoas, assim distribuídas:

Crateús - 889 pessoas

Poranga - 1175 pessoas

Monsenhor Tabosa - 443 pessoas

Tamboril - 113 pessoas

Quiterianópolis - 362 pessoas

Kaingang

Toy Art Kaingang

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
75KaingangGuayanás
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
PR, RS, SC, SP33064Funasa 2009

Os caingangues, Kainguangs, kaingang, kanhgág, guainás, coroados, bugres, botocudos,[2] camés ou xoclengues são um povo indígena do Brasil. Sua língua, a língua caingangue, pertence à família linguística jê, a qual, por sua vez, pertence ao tronco linguístico macro-jê. Sua cultura desenvolveu-se à sombra dos pinheirais (Araucaria brasiliensis). Há pelo menos dois séculos, sua extensão territorial compreende a zona entre o Rio Tietê (São Paulo) e o rio Ijuí (nordeste do Rio Grande do Sul). No século XIX, seus domínios se estendiam para oeste, até San Pedro, na província argentina de Misiones.

Atualmente, os caingangues ocupam cerca de 300 áreas reduzidas, distribuídas sobre seu antigo território, nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil. Sua população é de aproximadamente 33.064 pessoas. Os caingangues estão entre os cinco povos indígenas mais numerosos no Brasil atualmente. Na literatura internacional, o termo "caingangues" tem designado o povo que, na literatura de língua portuguesa, é chamado "xoclengue" (que hoje se autodenominam laklãnõ). Os xoclengues foram descritos por Jules Henry (1941: Jungle People: A Kaingáng Tribe of the Highlands of Brazil), pesquisador que esteve entre eles no início da década de 1930, no leste de Santa Catarina. Por isso, o que se costuma referir na literatura internacional como característica da cultura caingangue é, na verdade, característica da cultura xoclengue, segundo a descrição de Jules Henry.

As formas aportuguesadas "caingangue" e "xoklengue" são menos comuns nas publicações antropológicas e etnográficas. Especialmente a partir de uma convenção elaborada pela 1a Reunião Brasileira de Antropologia, em 1953, os usos mais correntes são Kaingang, Xokleng, caigangues e kanhgág.

Terras Indigenas Kaingang
Os caingangues ocuparam, historicamente, um vastíssimo território, não completamente contíguo, mais ou menos correspondendo à expansão maior das florestas de pinheirais, o que significa: vastas regiões do Paraná e Santa Catarina, a região do sul-sudoeste paulista, o planalto rio-grandense e parte de Misiones, na Argentina. Seus parentes próximos, os xoclengues, parecem ter preferido os campos entremeados dos pinheirais, mas também ocuparam regiões quase marginais à zona das araucárias. Os únicos grupos caingangues fora daquele ecossistema são os caingangues paulistas, cujo estabelecimento na região entre o rio Tietê e o rio do Peixe já foi apontado, por alguns autores, como posterior à do Paraná, e feita por grupos que transpuseram o rio Paranapanema.

Ocupando região tão ampla, em incontáveis grupos ou aldeias de população média em torno de 150 a duzentas pessoas (se são válidos os dados que temos para meados do século XIX), embora às vezes articulados por uma lideranças regionais, os caingangues seriam alvo de diferentes momentos de expansão das fronteiras econômicas brasileiras. Alguns grupos caingangues e xoclengues teriam sido convertidos por missões jesuítas no oeste do Paraná e no norte rio-grandense nas primeiras décadas do século XVII, mas não por muito tempo. Depois desse período, apenas no final do século XVIII foram atingidos por frentes de exploração militar, na região de Guarapuava, no atual estado brasileiro do Paraná, onde, em 1812, se iniciaram os primeiros contatos permanentes de um grupo caingangue com uma comunidade de língua portuguesa.

À mesma época, os territórios xoclengues dos campos de Lages eram alvo de ocupação e, também ali, moveu-se guerra aos índios. A economia pastoril, que levou à ocupação militar de Guarapuava, avançaria, no final da década de 1830, para a região dos Campos de Palmas e, pouco depois, o Campo Erê, os Campos de São João e os Campos Novos; finalmente, a partir dos meados da década de 1840, para a região norte do Rio Grande do Sul (Campos de Nonoai e, na sequência, Campos de Guarita e Campos do Erechim). A região norte do Paraná foi ocupada, também militarmente, apenas na segunda metade do século XIX. Nessa época, começou a ser utilizado o termo "kaingang" para se referir ao grupo: o termo foi cunhado em 1882 pelo coronel Telêmaco Borba, que expulsou esses índios de suas terras. O termo significava "morador do mato", de caa (mato) e ingang (morador).

O início do século XX assistiu à demarcação de boa parte das terras indígenas dos caingangues. Isso não impediu, no entanto, que elas rapidamente começassem a ser cobiçadas, invadidas, dilapidadas e griladas. O oeste do estado de São Paulo, com o avanço do cultivo do café, foi alvo da penetração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil na primeira década do século XX, quando o recém-criado Serviço de Proteção ao Índio foi responsável pela chamada "pacificação" dos caingangues. Ainda nos anos 1920, o Serviço de Proteção ao Índio mantinha, no norte paranaense, um "posto de atração" para os caingangues ditos "arredios". No Paraná, o primeiro conflito aconteceu já nos anos 1920, obrigando a uma mudança em delimitações originalmente feitas pelo estado e também criando uma demanda judicial que terminou desfavorável aos índios no caso das terras que possuíam em São Jerônimo.

No final dos anos 1940, o governador Moisés Lupion, em acordo com burocratas do Serviço de Proteção ao Índio, roubou diversas áreas indígenas. Em Santa Catarina, os maiores esbulhos deram-se também nos anos 1940. Não por acaso, no Paraná e em Santa Catarina estiveram envolvidas terras ricas em pinheirais, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial - o que gerou um surto madeireiro e, igualmente, um surto de expansão agrícola. No Rio Grande do Sul, o próprio estado começou a tomar terras antes demarcadas aos índios, já nos anos 1940, mas principalmente nos anos 1960.

Essa história de esbulho é acompanhada pela ocupação, também, de toda a cercania das terras indígenas por imigrantes e descendentes de imigrantes, pequenos proprietários e fazendeiros. A presença cada vez mais maciça de brancos nas proximidades de suas terras e - a partir das invasões e de arrendamentos promovidos pelo Serviço de Proteção ao Índio - dentro das próprias áreas foi fator importante de compulsão contra a permanência de tradições e práticas culturais indígenas, incluída a língua, além de casamentos interétnicos.

No caso específico do estado de São Paulo, além da depopulação violenta, verdadeiramente genocida, sofrida pelos caingangues (de algo em torno de 1 200 na primeira década do século, eram menos de duzentos, já "aldeados" pelo governo, antes do final da década seguinte), a partir dos anos 1940 suas áreas sofreram a introdução de indivíduos e famílias das mais diferentes etnias, por conta da política do Serviço de Proteção ao Índio de fazer, naquelas áreas indígenas, algo como "colônias penais". Índios do nordeste, do leste, do Mato Grosso do Sul e do norte do Brasil eram para lá levados e, lá, contraíam casamento. O resultado das uniões interétnicas foram famílias em que se usava sempre o português como língua franca e em que os filhos se tornavam falantes nativos dessa língua.

Cultura

Cada aldeia caingangue se divide em duas metades chamadas kaiurukré e kamé (ou, usando a escrita da própria língua: Kanhru e Kamẽ). Os membros de cada metade só podem se casar com os membros da outra metade. Os filhos ou filhas sempre pertencerão à metade (ou à marca) do pai.

Casas Subterrâneas 

Nos últimos cinquenta anos, os arqueólogos estiveram empenhados em estudar a trajetória dos Xokleng e os Kaingang, distribuídos na savanas tropicais do Brasil Central (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo), através de pesquisa em sítios com seus assentamentos, artefatos, fontes de subsistência e materiais usados em rituais.

O sítio de Rincão dos Albinos

O sítio de São José do Cerrito, localizado no Rincão dos Albinos, possui 107 ‘casas sub- terrâneas’, é considerado o maior sítio com este tipo de estruturas no Planalto Meridional e, sem dúvida, é o melhor lugar para discutir a formação de casas subterrâneas no Sul do Brasil (Fig. 1).
Casas subterrâneas da etnia Kaingang 0 Fig. 1. Localização dos sítios antigos relacionados no texto.Fig. 2. O conjunto de ‘casas subterrâneas’ a que se refere o texto (SC-CL-70 de Reis, 2007).
No alto esporão da borda de uma chapada, com aproximadamente 1200 m de altitude, Maria José Reis (2007) localizou um conjunto de 104 casas subterrâneas e 10 montículos, que dividiu em dois sítios, o SC-CL-70 com 36 (hoje 39) estruturas e o SC-CL-71 com 68 estruturas subterrâneas e os 10 montículos. Os dois sítios de Reis talvez não distem 100 m um do outro e formam, na realidade, um assentamento único, disposto ao longo de um pequeno banhado de altura que dá origem a um fluxo de água. Numa visão aérea o espaço aparece como uma clareira alongada coberta por vegetação herbácea em meio a uma alta mata com araucária (Fig. 7, foto de cima), hoje empobrecida pela retirada dos troncos maiores e a presença de gado. Ao pé da íngreme encos- ta pela qual se tem acesso ao sítio, distando uns 500 m dele, um arroio com bastante água, ora serpenteia na planície que criou, ora ace- lera o curso em rápidos entre pequenos blocos rochosos. O fluxo de água, ao longo do qual estão as estruturas, desemboca neste arroio.

Na margem esquerda desse fluxo, numa extensão de uns 100 m e distando 30 a 60 m da água, se encontram as 68 casas subterrâneas e os 10 montículos, que, segundo Reis, ocupa- riam uma superfície de 19.511 m2. Nenhuma estrutura anelar. As casas subterrâneas estão representadas por suas depressões centrais e seus aterros niveladores. Podemos classificar estas casas em grandes (depressões com 6 a 8 m de diâmetro), médias (5 a 5,5 m de diâmetro) e pequenas (4 m de diâmetro ou menos); as profundidades variam de 1,1 e 0,6 m. Das casas desta margem, tomando como referência suas depressões centrais, 12 (17,64%) são considera- das grandes, 29 (42,64%) médias, 27 (39,70%) pequenas. Os montículos, de funcionalidade ainda desconhecida, têm formas circulares
ou alongadas, com extensões de 2,5 a 5,0 m e alturas menores que 1 m.

Na margem direita, frente a estas, e manten- do igual distância da água, encontram-se outras 39 casas, num espaço não maior que 50 por 80 m, ou 4.000 m2. Destas, são consideradas gran- des 9 (23,07%), médias 8 (20,51%), pequenas 22 (56,41%). Nenhum montículo, nem estrutu- ra anelar. Este conjunto, mais bem conservado, foi escolhido para uma primeira compreensão do grande assentamento (Fig. 2).

Pintura Corporal Kaingang

Segundo relato oral dos Kaingang os primeiros de seu povo chegaram acompanhados da velha (uma anciã imortal). Ela saiu de um buraco da terra; e logo em seguida chegaram os Kaingang.

A tradição dos Kaingang conta que os primeiros desta nação saíram do chão (...) saíram em dois grupos, chefiados por dois irmãos por nome Kañeru e Kamé, sendo que aquele saiu primeiro. Cada um já trouxe um número de gente de ambos os sexos. Dizem que Kañeru e sua gente toda eram de corpo fino, peludo, pés pequenos, ligeiros tanto nos seus movimentos, como nas suas resoluções, cheios de iniciativa, mas de pouca persistência. Kamé e os seus companheiros, ao contrário, eram de corpo grosso, pés grandes e vagarosos nos seus movimentos e resoluções." (Nimuendajú Apud VEIGA, 1994, p.60). Os primeiros fizeram tudo: criaram os bichos e as cobras e mandaram as cobras picarem os outros seres. Criaram as plantas, as serras e os campos. Fizeram tudo." (Hanke, 1950:137)

Esta é a explicação mítica para o surgimento desta cultura e a figura da 'Mãe Universal' é o símbolo da vida, da fertilidade, renovando-se continuamente e no seu sentido espiritual do amor criador e infinito.

Por terem sido criados pelos "pais fundadores" Kamé e Kairu, todos os seres da natureza pertenceriam às duas metades, com exceção da terra, do céu, da água e do fogo.

Todos ainda manifestam sua descendência ou pelo seu temperamento ou pelos traços físicos ou pela pintura a que pertence o clã Kañeru é malhado, o que pertence ao clã Kamé é riscado. Os Kaingang reconhecem essas pintas tanto no couro dos animais, como nas penas dos passarinhos, como também na casca, nas folhas, ou na madeira das plantas. Das duas qualidades da onça pintada, o acanguçu é Kañeru, e por isso ela vai também adiante na piracema. O dourado é Kamé. O pinheiro é Kañeru, o Cedro é Kamé, etc. (Nimuendajú, [1913:59] 1993:60)

Os mitos revelam que são dois os elementos fundamentais da organização social Kaingang: a divisão em metades e as festas. Sua sociedade é dual dividida em metades exogâmicas, personificadas nos heróis míticos Kamé e Kairu,que se opõe e complementam.

Cada metade possui uma pintura corporal distinta. A metade Kamé possui pintura de riscos e a Kairu, círculos.(ver figura 1)

Entre os Kaingang da Terra Indígena de Apucaraninha, as pinturas que apresentam riscos são por eles denominadas de reoio e as de círculos de recutú. De acordo com esta divisão é que se dão os casamentos. Segundo a tradição, Reoio casa-se com Recutú, os filhos pintam-se de acordo com a pintura corporal do pai (risco ou bolinha).

No sistema Kaingang, a filiação a uma metade é definida patrilateralmente, ou seja, os filhos de ambos os sexos vão pertencer à metade do pai e não de sua mãe. Este procedimento continuo é que vai estabelecer o caráter patrilinear da sociedade Kaingang.

Seguindo este padrão, os filhos (as) pertencem à mesma seção de seu pai e devem casar repetindo o padrão de aliança contraído por seu pai. Neste sentido filhos e filhas devem casar com a mesma metade de onde veio a sua mãe.


#Nome da Pintura
Motivoidentificação
1Ra téi



Metade Kamé

Com um risco
2Ra taktéi



Metade Kamé

Com dois riscos
3Nhétkymby



Metade Kamé

Traços curvos nos cantos da boca
4Ra ror



Metade Kaîru

Com um ponto
5Ra róng ror


Metade Kaîru

Com três pontos 
6Ra ndor  

   



Metade Kaîru

Com círculos
FIGURA 1 - Acervo Pessoal de Kimiye Tommasino.
Pinturas corporais cerimoniais dos Kaingang - Representação das duas metades ciânicas da origem do povo Kaingang