sábado, 2 de janeiro de 2016

Matis

Toy art Matis

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
136MatisMushabo, Deshan MikitboPano
UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
AM390Funasa 2010


Notícias da existência de grupos arredios na área entre os rios Ituí e Itacoaí são conhecidas desde a implantação da sede da Funai no Alto Solimões em 1971, na cidade de Benjamin Constant. Esta sede serviu de suporte aos trabalhos de abertura da rodovia Perimetral Norte que ligaria este município a Cruzeiro do Sul, no Acre. A Ajudância do Alto Solimões (Ajusol) foi estruturada com a finalidade de atrair e assistir os índios do Javari, cujos territórios seriam atravessados pela estrada (Campanha Javari, 1986; Melatti, 1981).

Não há documentos anteriores a 1970 que falem sobre os Matis e, ainda em 1972, eram confundidos com os Marubo pelos servidores da Funai. Foi somente a partir de então que se iniciou um processo de reconhecimento dos Matis, pelos funcionários do órgão tutelar e pelos não-índios da região, como um grupo de características culturais próprias.

Assim, em 1974, seguindo os objetivos da Funai de contatar os grupos indígenas da região, foi fundado o Posto Indígena de Atração (PIA) Ituí na margem esquerda do rio Ituí, acima da foz do rio Novo de Cima (Melatti, 1981).

As informações a respeito da época dos primeiros contatos com os Matis diferem entre si. Segundo a Campanha Javari (1986), foi em 25 de agosto de 1975 que se deu o primeiro contato com uma mulher e uma criança de colo em um tapiri no igarapé Aurélio. De acordo com Júlio Cezar Melatti (1981), a data apresentada é 21 de dezembro de 1976. O fato é que a partir desse período os Matis começaram a empreender sucessivas visitas ao PIA Ituí com objetivo de obterem facões, machados, cachorros, galinhas etc.

Em 1977, os índios pegaram a primeira gripe dos funcionários do Posto, mas segundo os relatórios oficiais da Funai ninguém morreu. Em 1978, servidores da Funai visitaram as malocas Matis passando alguns dias entre eles. A partir desse momento, os contatos tornaram-se cada vez mais freqüentes.

A demografia dos Matis na época do contato apresenta estimativas muito variadas. Um atendente de enfermagem da época afirmou haver 150 pessoas. De acordo com um ex-funcionário da Funai, foram estimadas cerca de 300 pessoas a partir do tamanho das malocas e do número de espaços familiares que havia dentro destas. Já o pastor das Missões Novas Tribos do Brasil acreditava ter mais de mil Matis estimados depois de avistar 12 malocas durante o sobrevôo de uma área que considerou ser Matis (Campanha Javari, 1986). Os próprios Matis falam que eram em muitos antes da Funai e que muitos morreram durante uma epidemia de febre que deu, mas não há estimativas exatas (Campanha Javari, 1986).

Viviam tradicionalmente em grupos familiares que habitavam cinco malocas distantes entre si, com uma população variável e espalhada em seu território de ocupação (Melatti, 1981). Eram as seguintes: maloca do rio Coari; maloca do rio Branco; maloca do igarapé Boeiro; maloca do igarapé Jacurapá; maloca entre os igarapés Jacurapá e Boeiro.

A presença de madeireiros e seringueiros em mau estado de saúde e sem assistência nas proximidades dos Matis, recém-contatados, e mesmo a falta dos devidos cuidados no contato por parte dos funcionários do Posto, contagiaram os Matis desde cedo e a partir de 1978, começam as epidemias de gripe, tosse, disenteria etc. Para completar o quadro trágico, o posto não tinha remédios para a assistência ou gasolina para remoção dos casos mais graves, e assim começava a ocorrer mortes entre eles (Melatti, 1980).

Entre 1976 e 1980, foram notificadas de 10 a 12 mortes ocasionadas por várias doenças e, entre junho de 1981 a junho 1982, morreram em torno de 48 Matis devido a duas epidemias de gripe (que logo se transformava em pneumonia). Nesse período, criou-se uma enorme geração de órfãos. Segundo o levantamento feito recentemente pelo professor Tëpi Wassa Matis junto ao seu pai Txema Matis, durante uma das atividades do curso de formação promovido pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), foram citados nomes de 51 pessoas que morreram nas epidemias de 1981.

Em 1983, a população Matis passou de 135 para 87 pessoas - com a morte de 35% de sua população (Porantim, 1982; Melatti, 1983; Campanha Javari, 1986). As crianças e velhos foram os mais atingidos. Entre os velhos, foram pouquíssimos que sobreviveram. Em 1985, três anos após essas epidemias um censo populacional realizado pela Campanha Javari revela que apenas sete pessoas possuíam mais de 40 anos (Campanha Javari, 1986).

Em fevereiro de 1982, o relatório dos chefes do Posto Indígena (PI) Ituí e do PI Marubo afirmava a existência da invasão do rio Branco por madeireiros bem na área Matis. É possível que estes tenham sido responsáveis por epidemias de gripe na região (Melatti, 1983).

Devido ao grande número de mortes em cada grupo familiar, os Matis tiveram que se reestruturar, adaptando suas regras de casamento e relações sociais e políticas entre os diversos grupos. Com isso, os sobreviventes formaram basicamente dois grupos que se mantêm até hoje (Campanha Javari, 1986; Erikson, 1992).

Indagado sobre a região de origem do grupo, o velho Binã afirmava que antes moravam entre o Curuçá e o Ituí, mas não sabia dizer quando atravessaram para a margem direita (Melatti, 1981). Os sobreviventes da epidemia não se lembravam, todos os mais velhos haviam morrido e suas memórias remontavam à época em que já viviam na área compreendida pelos rios Ituí, Itacoaí e Branco (Campanha Javari, 1986). De acordo com informações de um ex-funcionário da Funai, a área de ocupação dos Matis se situava entre as cabeceiras dos igarapés São Bento, Aurélio, Jacurapá e Coari.

A partir do início do contato, os Matis começam a estabelecer relações com os Marubo que eram como “intérpretes”, já que também falavam uma língua Pano. Várias famílias Marubo desceram do alto Ituí e se fixaram no PIA Ituí, localizado no médio rio Ituí, atraídos pela presença da Funai. Assim se intensificou o contato entre os povos e as conseqüências dessa aproximação também se fizeram sentir (Campanha Javari, 1986). De um lado, os Marubo com mais de um século de contato com a sociedade envolvente e de outro, os Matis recém-contatados.

Em 1982, na tentativa de solucionar os problemas causados por não-índios e pelos Marubo, a Funai decide transferir os sobreviventes Matis e as instalações do posto para o igarapé Boeiro, onde estes passam a residir em duas malocas (Melatti, 1983; Campanha Javari, 1986).

No igarapé Boeiro, os Matis passam por um período de grande escassez alimentar devido à falta de roças, o que os leva a roubar várias vezes alimentos nas roças dos ribeirinhos e dos Marubo do antigo posto. Além disso, este era um local difícil de se obter o curare, o veneno usado nas setas de zarabatanas, e o tatchi, um chá tradicional de grande importância espiritual. O processo de sedentarização e de concentração populacional em um único local diminuiu a mobilidade do grupo e criou conflitos entre os grupos (Campanha Javari, 1986).

Em 1987, os Matis mudaram-se para uma área próxima ao rio Novo e, em 1993, se estabeleceram na margem esquerda do Ituí, a montante do igarapé Jacurapá (Campanha Javari).

Já em 1998, sentindo-se cercados pelos Marubo do alto Ituí, rio acima, e pelos Marubo do antigo PI Ituí, na foz do rio Novo de Cima - isso sem falar na falta de alguns recursos - os Matis construíram uma nova aldeia no igarapé Aurélio, rio abaixo. Muitos vivem nesse local até hoje, distribuídos em três grandes malocas na foz do igarapé.

A partir de 2005, vinte e quatro anos após as traumáticas epidemias, os grupos familiares começam a se organizar de acordo com o seu padrão tradicional. Um deles deixou a aldeia Aurélio e formou uma nova, a aldeia Beija Flor, a quarenta e cinco quilômetros em linha reta da primeira.

Com o crescimento populacional, práticas rituais abandonadas após as mortes dos velhos e xamãs, principais detentores do saber tradicional, foram retomadas (Erikson, 1991). Em 1986, por exemplo, os Matis retomaram o mais importante cerimonial, o rito de tatuagem. Nesse ano, vinte e seis jovens aceitaram ser tatuados e apenas dois se recusaram, demonstrando a volta do interesse por práticas tradicionais.

Este exemplo contrasta com o saudosismo do grupo, em 1995, quando diziam que a tatuagem tinha desaparecido devido à proximidade dos não-índios e à morte dos mais velhos, já que esse ritual é considerado cheio de perigos sobrenaturais que somente os últimos conheciam.

Em algum momento entre os anos de 1993 e 1998, um outro ritual de tatuagem foi realizado, assim como em 2002. Foi uma surpresa para todos aqueles que conheciam de perto os Matis, pois consideravam que esse rito tinha sido completamente abandonado especialmente por causa da vergonha que os mais jovens tinham de se apresentar diante dos não-índios com o rosto tatuado - marca irrefutável de sua identidade étnica.

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