domingo, 14 de fevereiro de 2016

Kamayurá

Toy Art Kamayurá

#NomesOutros nomes ou grafiasFamília linguísticaInformações demográficas
80KamayuráKamayuráTupí-Guaraní

UF / PaísPopulaçãoFonte/Ano
MT467Ipeax 2011



Os camaiurás (também kamaiurás ou kamayurás) constituem uma etnia indígena brasileira. Habitantes do Parque Indígena do Xingu, às margens da zona de confluência entre dois importantes rios da microbacia xinguana, os camaiurás pertencem ao grupo étnico e linguístico tupi-guarani, estando inseridos na zona cultural do Alto Xingu.

read this article in English

Os camaiurás possuem um sistema tradicional caracterizado pela heterogeneidade, fruto do intenso processo de matrimônio intertribal e dos enérgicos laços de coesão que mantêm com outras sociedades indígenas do mesmo espaço geográfico.

Entre os indígenas do grupo, vigora um sistema de organização civil peculiar, caracterizado por um único complexo de imensas ocas comunitárias circularmente dispostas ao redor de um terreiro público. Tal espaço, formado a partir da convergência de quatro vias principais, destina-se à celebração dos ritos e tradições referentes à cosmologia do povo. As habitações, primordialmente constituídas por taquaras e palha, podem chegar a trinta metros de comprimento e abrigar várias famílias, segundo a ancestralidade que possuam.

A sociedade, embora rigidamente patriarcal, não menospreza o papel feminino, encarregando as mulheres da tutela dos filhos, manutenção da ordem doméstica, plantio e colheita das raízes comestíveis e preparação dos alimentos, enquanto compete ao homem a obtenção protéica e a limpeza da roça na qual será plantada a mandioca.

Localização

À altura do primeiro contato não indígena, liderado pelo etnólogo alemão Karl von den Steinen, em 1886, os camaiurás encontravam-se em estágio final de sedentarização, assentados nas proximidades da lagoa de Ipavu, onde permanecem até hoje. Segundo relatos tradicionais, amplamente aceitos entre os indígenas, o povo viria do Wawitsa, localizado na zona mais setentrional do parque. A região, onde desembocam os principais afluentes da bacia do Xingu, possui espaço de destaque na cosmologia do grupo étnico.

Organização Fisica

As estruturas habitacionais camaiurá possuem influências insignes do estilo arquitetônico alto xinguano, podendo atingir até trinta metros de extensão e dez metros de altura. Com uma estrutura de madeira e taquaras majoritariamente revestidas de sapê ou folhas de palmeira, as ocas gozam de estatuto coletivo, não apresentando quaisquer tipos de divisões internas. Marginalmente ao centro da habitação, de onde se projeta uma única coluna de madeira, aglomeram-se as famílias do clã, enquanto que os ambientes mais internos são destinados à estocagem do alimento e à manutenção da fogueira.

A aldeia, por sua vez, constitui um único núcleo de povoamento, formada de uma praça (língua camaiurá: hoka´yterip) central em cujo entorno se erguem as palhoças, numa distribuição circular. Nuclear à hoka´yterip, ergue-se a casa das flautas, onde se acondicionam as flautas utilizadas em rituais xamânicos. O acesso a tal estrutura, bem como a utilização das flautas, é restrito aos homens da aldeia, imputando às mulheres que descumprem tal proibição a pena de estupro coletivo.

Casa antropomorfa Kamayurá

A casa é típica da etnia, que vive no Xingu. Ela consiste em uma estrutura oval de 8 metros de largura, 12 de comprimento e 6 de altura, com três pilares centrais. A oca já era construída há muitas décadas como parte da tradição dos Kamayurás e Yawalapitis, mas para a construção desta oca, em específico, um projeto foi criado por Aiupu Kamayurá, que é arquiteto e ministra algumas aulas da disciplina “Construção do Saber”, na Universidade de Brasília, UnB.

Casa Antropomorfa Kamayurá - as partes da casa são diretamente relacionadas com as partes do corpo

Anuiá, que é filho de Aiupu, conta que para fazer uma oca desse porte são necessários 13 homens, que vão trabalhar durante cerca de 15 dias. “Mesmo com o atraso de três dias por causa do material, acho que vamos conseguir terminar a oca a tempo”, diz Anuiá. Na aldeia Yawalapiti no Xingu existe uma oca principal, chamada por eles de casa grande. Esse espaço é usado para dormir, comer e confraternizar. Essa oca tem 12 metros de largura, 30 metros de comprimento e 10 metros de altura e comporta cerca de oito famílias.

Segundo Anuiá, estão sendo utilizados bambus, pregos, madeira de eucalipto, palha e arame na construção desta oca. São cerca de 48 tocos de eucalipto, três troncos maiores, além de mais de 13 mil palhas para a cobertura. Nas casas feitas na aldeia do Xingu, os Yawalapiti usam outros materiais, como imbira (uma espécie de amarra) e sapé (uma palha específica encontrada por lá).

O irmão de Anuiá, Wally, está aprendendo com o pai um pouco sobre arquitetura e explicou como é a estrutura da oca e as etapas da construção. Segundo ele a base começou a ser feita no sábado e consiste nos três pilares centrais, os 48 tocos em volta e os troncos mais finos de eucalipto, que  vão até o topo. Com a chegada dos materiais, as mulheres ajudaram a descascar as madeiras para continuar a construção.

Depois dessa base, os troncos mais finos são amarrados às chamadas “costelas” da oca, que sustentam a palha e também servem para amarrar as redes, quando ficar pronta. São no total quatro ou cinco costelas horizontais que unem todos os eucaliptos, dando à oca o formato oval. Quanto mais alta a costela, menor ela é. No final, é feito o acabamento da estrutura e depois as palhas são trançadas, de baixo para cima.

Trabalho

O trabalho começa cedo, às 7h30 da manhã. Eles param para o almoço e um pequeno descanso e, à tarde, retornam ao trabalho. Na construção da oca, o trabalho das mulheres é diferente do feito pelos homens. Elas ajudam descascando os troncos e fazendo a comida. Os homens trabalham diretamente com a construção, levantando toda a estrutura da casa.

Ao entardecer, quando o sol desce, eles encerram o trabalho e se preparam para as atividades da noite. Por volta de oito horas, os Kamayurás jantam e, sob o céu estrelado, realizam seus cantos e rituais. 

Hábitos culturais

A admissão do jovem indígena na atmosfera adulta exige um período de clausura assistida, que, geralmente, inicia-se em virtude dos primeiros caracteres da puberdade. Durante o ciclo, os adolescentes são isolados numa estrutura habitacional específica, onde têm o contato social restrito à presença do pais e avós. Os que guardam tal parentesco, responsabilizam-se pela instrução produtiva do indígena, dando ênfase especial às atividades referentes ao sexo do adolescente e o modo de realizá-las. À ocasião, os garotos são educados sobre a prática do huka-huka, uma arte marcial ritualística frequentemente associada às festividades cosmológicas do povo.

Huka - Huka 


Embora, para as adolescentes, o início da reclusão esteja rigidamente relacionado à menstruação, para os entes masculinos requer o consenso mútuo entre seus pais. O processo de instrução prolonga-se por tempo indeterminado, e, não obstante a permanência feminina raramente se estenda por muito mais de um ano, os garotos podem espaçarem-se enclausurados por períodos até cinco vezes maiores, intercalados por breves acessos de liberdade. Durante a ocasião, as garotas têm seus joelhos amarrados por cordas fibrosas, de forma que a panturrilha se torne mais robusta pelo acúmulo de líquidos. De igual modo, são privadas de cortar o cabelo, fazendo com que, ao fim do rito, as longas madeixas da franja encubram parte de suas faces. Assim que a extensão capilar das adolescentes atinge a altura do queixo, estas são liberadas da clausura.

A duração média do rito se relaciona ao status hereditário que acompanha o jovem, de forma que um maior espaço recluso implica, proporcionalmente, um maior poder e importância entre os indígenas da aldeia. Ao fim da clausura, é dado um nome definitivo ao jovem, que vem a substituir o nome que recebeu em virtude do seu nascimento. O período marca, de mesmo modo, a aptidão aos ritos matrimoniais.

Preenchendo um espaço cultural notável, o infanticídio é, frequentemente, associado ao sistema cultural do povo, embora não possuam exclusividade na realização da prática. Os filhos de mãe solteira, possuidores de malformação congênita e gêmeos, são os principais alvos deste ritual, que, embora seja bastante enraizado no contexto de tradições do povo, gera divergências entre os próprios membros da aldeia. Os indígenas recém-nascidos, ao enquadrarem-se em qualquer dos motivos supracitados, são, geralmente, soterrados ainda vivos, embora também possam serem executados por afogamento. Atualmente, algo em torno de trinta crianças indígenas são mortas pelos camaiurás todos os anos, não obstante a FUNAI ofereça serviços de adoção das crianças rejeitadas.

Jogos e atividades lúdicas

O repertório lúdico dos indígenas camaiurá, caracterizado pela insigne diversidade de expressões performativas, apresenta-se sob a forma de brincadeiras e de jogos que gozam de notável popularidade entre os integrantes do grupo. Tais atividades, especialmente praticadas pelas crianças e homens da tribo, perfazem parte importante da vida cotidiana do povo, podendo, casualmente, envolver instrumentos específicos ao fim. Alguns destes utensílios apresentam mecanismos singulares, a exemplo de um curioso brinquedo infantil, que, produzido a partir de taquaras e fios de juta, atira um frágil jato d'água sob pressão.

Mojarutap Myrytsiowit: a brincadeira da cama de gato, como é conhecida em português, consiste na produção de figuras diversas utilizando-se de dois cordões fibrosos enrolados entre os dedos. As formas resultantes, geralmente geométricas ou antropomórficas, constituem um dos mais notáveis exemplos de produção criativa dos camaiurás, possuindo clara influência da cosmologia tradicional do povo.

Jawari: usando uma espécie de zarabatana, especialmente produzida para este fim, um grupo de competidores lançam artefatos pontudos em direção de uma cerca de varas previamente organizadas. Detrás da cerca, enfileiram-se os demais brincantes, de forma que esta funcione como escudo contra as lanças arremessadas pelos competidores. A medida que as lanças atingem os paus que formam uma parede pouco firme, os índios que estavam originalmente atrás desta parede devem desviar-se das setas, sem, contudo, moverem os pés.

Sociedade

A sociedade camaiurá organiza-se em hierarquias estamentárias bem definidas, caracterizadas pelo forte patriarcalismo e, geralmente, transmitidas pela hereditariedade. O chefe tribal, o cacique, representa o status máximo atingível dentro dos limites da aldeia, servindo aos papéis de mediador e regulador de conflitos entre os demais indígenas. O Pajé encarregado dos ritos xamânicos, por sua vez, concentra poderes políticos minimizados, não obstante traga consigo grande prestígio e apreço entre os integrantes da tribo. Em certos casos, um único indígena pode concentrar poderes místicos e políticos, o que aumenta ainda mais o renome do indivíduo.

Trajes femininos Kamayurá

Habitam em ocas familiares, que, usualmente, orbitam em torno de um grupo de irmãos que podem ou não estarem acompanhados por primos e ascendentes paralelos. O líder do espaço doméstico, conhecido como dono da casa (camaiurá: morerekwat), é o encarregado da distribuição dos afazeres cotidianos entre os clãs satélites. Existe, entre os integrantes da aldeia, uma forte tradição poligâmica, de modo que um elevado número de esposas indica, proporcionalmente, um maior status social. Ao marido, a aquisição de uma nova esposa exige, além da possibilidade de mantê-las em condições confortáveis, a permissão das já existentes.

Tradicionalmente, os jovens recém-casados devem residir por um período pré-estabelecido de tempo junto aos sogros, realizando favores em agradecimento à cessão da filha. Cumprido o acordo, o casal pode escolher em qual residência se estabelecer, que em geral é a casa de origem do marido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário